Arquivo de Abril, 2009

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O escafandro e a borboleta

Abril 28, 2009

Don’t kiss me goodbye, Ultra Orange & Emmanuelle

(Le scaphandre el le papillon soundtrack, de Julian Schnabel – Prémio Melhor Realizador no Festival de Cannes de 2007)

Jean-Dominique Bauby. Editor da revista Elle e empresário de sucesso. Bonito. Charmoso. Bem-sucedido. Aos 43 anos sofre um acidente vascular cerebral e entra em coma. Acorda após 20 dias e descobre que a única forma de comunicação com o mundo exterior só poderá ser feita através do seu olho esquerdo. Com este olho piscava uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com ele chamava também a atenção do seu visitante para as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Assim escreveu  Le Scaphandre et le Papillon: todas as manhãs, durante semanas, decorou as suas páginas antes de ditá-las, depois de as ter corrigido mentalmente durante a noite. Vale a pena ler. Vale a pena ver.

Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.

Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.

Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.

É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.

O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.

Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.

Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?

Jean-Dominique Bauby faleceu a 9 de Março de 1997, mas deixou este seu testemunho impressionante, do que é ter um intelecto vivo dentro de um corpo morto.

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vanilla strawberry knickerbocker glory

Abril 21, 2009

Knickerbocker, Fujiya & Miyagi

 

Steve Lewis > Fujiya > uma marca japonesa de gira-discos

David Best > Miyagi > o simpático mestre de Daniel San - o Karate Kid

“… vanilla strawberry knickerbocker glory…i saw the ghost of lena zavaroni…”

 

24.04.09, Sexta-feira

Fujiya & Miyagi

Casa das Artes de Famalicão – Grande Auditório – 22h00

 see u there? ;)

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O tempo.

Abril 15, 2009

Solo, Chew Lips

Detesto perder tempo com coisas simples e objectivas, que foram criadas para não se perder tempo.

Adoro perder tempo a desenhar caças à caixa de pandora.

Trocava o meu relógio de 24 horas apressadas por uma ampulheta de meia-hora demorada.

We don’t wanna wait, there’s no time, no time.

 

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Viver nas tuas pálpebras.

Abril 14, 2009

Eyelids, realizado por Brad Bischoff

Música de Doug Orey

Poema escrito por Brad Bischoff à namorada no dia de São Valentim

Descobri que quando fico feliz, a minha íris fica mais colorida e pigmentada. E que isso se nota.

E que há pessoas que gostariam de viver na pontinha das nossas pálpebras, à espera de um sinal da íris, só para nos verem mais felizes.

E que quando estamos cansados da luz do dia, alguém nos puxa devagarinho as pálpebras até fecharmos os olhos e dormirmos. Em paz.

E que os nossos olhos, muitas vezes, não são nada mais do que o reflexo da pessoa que está ali, à nossa frente (mesmo que esteja escondida nas nossas pálpebras).

 

I hope one day you look at me

Because I really want to talk to you

I hope one day you know my name

And even let me walk with you.

If only I could introduce myself

Just walk up and say “hi”

If only i could work up the courage

But i’m just too shy.

I have trouble concentrating

When you sit across from me

I can’t stop looking at you

And thinking of where i’d like to be.

If I could live in one place

Whenever, wherever

I would choose the edge of your eyelids

‘Cause then I’d be with you forever.

(…)

I’d live on your eyelids

And I’d never leave

Because one of those days

You just might notice me.

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E só assim então, serei feliz, bem feliz

Abril 9, 2009

Carinhoso, Maria Monte e Paulinho da Viola

Porque sim.

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O concerto que gostava de ter visto e não vi

Abril 6, 2009

To Build a Home / Breathe, The Cinematic Orchestra

Pronto, e foi assim. Este era o concerto que gostava de ter visto e não vi :(  A causa, como podem imaginar, foi a mais nobre e valiosa do mundo.

Fico à espera que me contem como foi (buáaaaaaaa). Mas, do que já me chegou aos ouvidos, estes senhores das mais belas imagens sonoras trouxeram ao Sá da Bandeira…

“interpretações brilhantes, temas tremendos, sobre e sob um som de excelente qualidade (…), desfilando, de um modo que o tempo não se fez notar: alquimia pura.”

“(…) para trazer à boca de cena, quem em conjunto, durante aproximadamente duas horas, se moveu por um palco como só os grandes actores sabem pisar, projectando imagens sonoras, como apenas os monstros sagrados do palco o sabem fazer à sua voz.”

A Up the Resolution pegou em dois temas do álbum “Ma Fleur” dos Cinematic Orchestra – “To Build a Home” e “Breathe” – e deu-lhes forma através desta curta-metragem, protagonizada por Peter Mullen e Julia Ford e que estreou no Edinburgh Film Festival. “To Build a Home” encarna uma primeira parte mais visceral e dramática do filme e “Breathe” remata com o lado mais espiritual e simbólico da história.

As imagens traduzem visualmente a letra e o tom destas músicas – falam da construção de um mundo a dois, da partilha, da perda, das memórias e da solidão e, para mim, resumem-se a uma das mais velhas e românticas expressões do mundo…

… na alegria e na tristeza,
na saúde e na doença,
por todos os dias da nossa vida.

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