A Banda

no sofá cor-de-laranja

The Band’s Visit, Habib Shadah soundtrack

Era uma vez, não há muito tempo, uma pequena banda da polícia egípcia que chegou a Israel. Vieram para tocar na cerimónia de inauguração de um centro cultural árabe, mas, devido à burocracia, ao azar ou a qualquer outra razão, são esquecidos no aeroporto. A banda tenta chegar ao seu destino, mas acaba por ir parar a uma pequena e quase esquecida cidade israelense, algures no coração do deserto. Uma banda perdida numa cidade perdida.

Embalados por uma banda sonora ao estilo jazzístico de Chet Baker e pelo recurso aos longos planos contemplativos, The Band’s Visit mergulha-nos no estado de solidão não só do lugar em si, mas também de todos os personagens que compõem esta sátira à vida humana, tanto dos que chegam – os músicos -, como dos que ali permanecem para sempre.

O tempo parece parar na exposição poética do mundo interior destes personagens, de tal forma que, ao longo do filme, quase nos esquecemos que tais personagens pertencem a dois grupos tradicionalmente conflituosos entre si: egípcios e israelitas.

Um belíssimo filme do israelita Eran Kolirin, com não menos belas interpretações. que valeram a esta obra mais de 30 distinções no mundo do cinema. Curiosamente, acabou por ser desqualificado na corrida aos Academy Awards, quando destacado para a categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira. Isto porque mais de 50% dos seus diálogos eram em Inglês, já que era esta a única língua comum entre egípcios e israelitas…apesar de ninguém o falar correctamente e algumas das cenas acabarem por se resumir a uma delicada e meiga mímica de entendimento.

Sou louca, sou louca…

headphones, música in motion, palavras com música, showcase (breves)

Barco Negro, Amália Rodrigues

A Imagem

Filme de animação da autoria de Teresa Pontes e Filipa Horgan Biscaia, realizado durante o estágio na Werksttahaus, em Estugarda.

A Música

Em meados dos anos 50, dois brasileiros – Piratini e Caco Velho – criaram uma notável canção cujo texto e música dispensam comentários: “Mãe Preta”.

Pele encarquilhada carapinha branca
Gandôla de renda caindo na anca
Embalando o berço do filho do sinhô
Que há pouco tempo a sinhá ganhou.
Era assim que mãe preta fazia
Criava todo o branco com muita alegria.
Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava
Mãe preta mais uma lágrima enxugava.
Mãe preta, mãe preta.
Enquanto a chibata batia no seu amor
Mâe preta embalava o filho branco do sinhô.

O texto foi proibido em Portugal e David Mourão-Ferreira escreveu outro texto – Barco Negro, que nada tinha a ver com o brasileiro. No texto português, a tragédia do pescador tinha substituído a tragédia da exploração e do racismo.

Amália Rodrigues cantou esta música pelos quatro cantos do mundo e tornou-a famosa.

A Poesia

De manhã, temendo, que me achasses feia,
Acordei, tremendo, deitada n’areia
Mas logo os teus olhos disseram que não
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,  
E o teu barco negro dançava na luz   
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas   
Dizem as velhas da praia, que não voltas.   

São loucas! São loucas!   

Eu sei, meu amor,  
Que nem chegaste a partir,  
Pois tudo em meu redor,  
Me diz qu’estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros,
Na água que canta, no fogo mortiço,
No calor do leito, nos bancos vazios,
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

A Alternativa (à “morna dos pés descalços” do post anterior)

10.07.09, Sexta-feira

O Fado

Praça da República, Viana do Castelo – em frente ao “Caranguru”

22h00 – “entrada” gratuita :)

P.S.: Não são profissionais do fado, mas são profissionais do que mais gostam de fazer.

História trágica com final feliz

música in motion

História trágica com final feliz, Regina Pessoa

Música: Normand Roger / Voz off : Manuela Azevedo

 Há pessoas que são diferentes. E tudo o que desejam é serem iguais aos outros, misturarem-se deliciosamente na multidão. Há quem passe o resto da vida lutando para conseguir isso, negando ou tentando abafar essa diferença. Outros assumem-na e dessa forma elevam-se, conseguindo assim um lugar no coração.

Foram 3 anos de intenso trabalho para fazer os milhares de desenhos realizados expressamente para este filme.
O reconhecimento internacional já lhe rendeu mais de 50 prémios, mas o mais importante é sem dúvida no Festival de Annecy, considerado o “Cannes” do cinema de animação. Este filme tornou-se no filme português mais premiado de sempre.

História trágica com final feliz  resulta de uma co-produção internacional entre a Ciclope Filmes, a Folimage (França) e o Office Nacional du Film (Canadá) e é da autoria da portuguesa Regina Pessoa:

Vivi no campo, numa aldeia perto de Coimbra até aos 17 anos. O meu universo era rural. Não tínhamos televisão, o que na altura era uma grande maçada, mas hoje, reflectindo bem, acho que me salvou. Nos tempos livres pensávamos, líamos e ouvíamos os mais velhos contarem histórias. E desenhávamos também. Um tio meu encorajava-nos, desenhando nas paredes de cal e nas portas da casa da minha avó, com carvão da fogueira. O facto de desenharmos assim, pelas paredes, ainda por cima incentivados por um adulto, dava-nos uma sensação de liberdade, porque se, por um lado não tínhamos papel nem lápis, arranjávamos sempre umas paredes ou portas. Talvez isso tenha ficado no meu inconsciente porque agora, bastante mais tarde, é já o segundo filme que faço em gravura…

Bailarina de histórias

música in motion

Pina Bausch, ária Addio del passato da Traviata de Giuseppe Verdi

A “grande dama da dança contemporânea alemã” morreu hoje, aos 68 anos, após lhe ter sido diagnosticado um cancro há 5 dias atrás.

Directora da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, a coreógrafa era conhecida por contar histórias enquanto dançava e por integrar as experiências de vida dos seus bailarinos nestas histórias.

Cafe Müller foi a única peça da sua autoria que interpretou, tendo também participado em E la nave va, de Fellini e no genérico de Habla con ella, de Pedro Almodovar.

A criadora da vertente “dança-teatro” dizia não estar interessada em como as pessoas se movimentavam, mas antes naquilo que as movia.

Happy with you

música que me faz contente

Softly, Lamb

Softly kissing you as you lie sleeping
Breathing gently with you in your slumber
Your face is the picture of contentment
My angels dreaming my angels dreaming

(so happy with you)
Im so happy with you

Slowly opening your wondrous eyes on me
Shining green and glorious in the morning sun
This moment what could be more precious?
May it live forever may it live forever

(so happy with you)
I’m so happy with you

Smiling on me your love gives me all the blessings of this new day
The heat in your skin caresses my senses in such a glorious way

(so happy with you)
I’m so happy with you.

Às vezes não temos nada para dizer…outras vezes, temos tudo.

P.S.: Para os mais saudosistas, podem rever os Lamb no dia 16 de Julho, em Vila Nova de Gaia, no Festival Marés Vivas.

Bowerbirds e a arte de seduzir

headphones, música que me faz contente

In our talons, Bowerbirds

Os bowerbirds são uma espécie de pássaros da Austrália e da Nova Guiné e são conhecidos por “pássaros-construtores”. Têm apenas 21 cm mas constroem ninhos até 3 m – verdadeiras obras de arte ornamentadas com flores, conchas, musgo, besouros, pedras e frutos.

Depois, o sonho do pequeno bowerbird é, obviamente, partilhar a sua obra-de-arte com a “bowerbird fêmea”. Quando termina a construção da “casa” e aparece uma fêmea, o bowerbird enceta um ritual de dança, seduzindo-a para o seu ninho. Pouco depois ela entra para ver se gosta da casa. Se gostar, vai ajudá-lo na decoração e, mais tarde sairá de casa, para construir o seu próprio ninho, este mais pequeno e funcional, sem qualquer participação do macho, e onde irá colocar os seus ovos.

Também as aves adoptam diferentes técnicas de persuasão. Se o pavão se limita a atrair a fêmea através da sua beleza, exibindo o leque colorido da sua cauda, o bowerbird faz jus à sua criatividade e seduz através da sua obra, da magnificiência do seu ninho.

 

deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet! and the sparrows sing… deet-deet-deet-deet-deet-deet-deet!

Se o sol se recusa a brilhar…

headphones, música que me faz contente

Thank you, Led Zeppelin

Quem me conhece sabe que sou uma rock’n’rolla de nascença. O meu pai costuma cantarolar-me no seu “inglês à moda antiga” o Smoke on the Water, só para lembrar que essa foi, na realidade, a minha primeira experiência musical neste mundo. Lírico, no mínimo, não? :)

Pois quanto a mim, estes são os dois grandes senhores do rock’n’roll dos anos 70 (e 80 e 90 e por aí adiante). Plant e Page faziam a dupla perfeita e Thank You foi o primeiro tema escrito na íntegra por Robert Plant. Mais do que isso, nesta música sobressai não só a efusiante letra e voz de Plant, como também os inconfundíveis riffs de Jimmy Page (reconhecido como um dos 10 melhores guitarristas do mundo), o melodramático Hammond de John Paul Jones e a batida segura de Michael Lee (na origem dos Led Zeppelin, a bateria pertencia a John Bonham que, entretanto, viria a falecer em 1980, na sequência de 40 brindes de vodka…).

Reza a lenda que os Led Zeppelin venderam a sua alma ao diabo…Pois haja música do diabo!

If the sun refused to shine, I would still be loving you.
If the mountains should crumble to the sea, there would still be you and me.

Kind woman, I give you my all. Kind woman, nothing more.

Little drops of rain whisper of the pain, tears of loves lost in the days gone by.
But my love is strong, with you there is no wrong,
together we shall go until we die. My, my, my.
Inspiration’s what you are to me, inspiration, look… see.

And so today, my world it smiles, your hand in mine, we walk the miles,
Thanks to you it will be done, for you to me are the only one.
Happiness, no more be sad, happiness….I’m glad.
If the sun refused to shine, I would still be loving you.
If the mountains should crumble to the sea, there would still be you and me.

 

O escafandro e a borboleta

no sofá cor-de-laranja, palavras com música

Don’t kiss me goodbye, Ultra Orange & Emmanuelle

(Le scaphandre el le papillon soundtrack, de Julian Schnabel – Prémio Melhor Realizador no Festival de Cannes de 2007)

Jean-Dominique Bauby. Editor da revista Elle e empresário de sucesso. Bonito. Charmoso. Bem-sucedido. Aos 43 anos sofre um acidente vascular cerebral e entra em coma. Acorda após 20 dias e descobre que a única forma de comunicação com o mundo exterior só poderá ser feita através do seu olho esquerdo. Com este olho piscava uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com ele chamava também a atenção do seu visitante para as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Assim escreveu  Le Scaphandre et le Papillon: todas as manhãs, durante semanas, decorou as suas páginas antes de ditá-las, depois de as ter corrigido mentalmente durante a noite. Vale a pena ler. Vale a pena ver.

Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.

Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.

Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.

É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.

O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.

Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.

Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?

Jean-Dominique Bauby faleceu a 9 de Março de 1997, mas deixou este seu testemunho impressionante, do que é ter um intelecto vivo dentro de um corpo morto.